02 de outubro de 2026
DIE BERÜHMTEN ORDEN DER NACHT “As Renomadas Ordens da Noite”, de Anselm Kiefer – uma breve análise poética
Anselm Kiefer, (As Renomadas Ordens da Noite, 1997) | Museu Guggenheim Bilbao

Em “As Renomadas Ordens da Noite”, Anselm Kiefer se retrata prostrado, rendido, afinal. De seu passado nada resta, mas as fissuras do solo que o sustenta, deixam brechas... À sua frente, o firmamento que o oprime, em silêncio, mostra-lhe todo seu poder, e nele contido, o seu amor: permite que seus brilhos, antes ocultos à consciência solar, cheguem aos olhos do homem abnegado. – Para que sinta-se parte, também, dele?
Nascido na Alemanha ao final da Segunda Guerra Mundial, Anselm Kiefer cresce com os desgastes do pós guerra e “surge no panorama da arte alemã, nos finais da década de sessenta, inícios de setenta, apresentando obras de forte pendor conceptual.” (REGO, 2013, p. 194). Em sua primeira obra, intitulada “Besetzungen” (Ocupações), fotografou-se fazendo a saudação nazi em diferentes localidades da Europa, mostrando seu interesse em transitar, provocar e elucidar “regiões difíceis da existência” (REGO, 2013, p. 195). Segundo Rego (2013), este e outros trabalhos iniciais surgiram como reação ao silencioso prosseguir da história Alemã, buscando evocar um retorno, uma verdadeira catarse que enfrentasse o passado vergonhoso e traumático que a nação preferia desviar-se.
Mais tarde, conservou-se o método, mas as explorações de Kiefer expandiram-se e ele passou a abordar temas mais universais, tais como civilização, cultura e espiritualidade. Embasava-se em fontes como a Cabala, alquimia e mito antigo, deixando um pouco a história germânica.
Em 1995, Kiefer começou a reincorporar a figura humana em seu trabalho. Várias peças feitas entre 1995 e 1996 mostram-no deitado no chão como se fosse um cadáver. Em As Renomadas Ordens da Noite (Die berühmten Orden der Nacht, 1997), Kiefer também retrata-se como uma figura solitária, deitada em um chão ressecado e rachado sob o imenso manto de estrelas. Kiefer é fascinado pelo céu noturno e suas diferentes interpretações ao longo da história, especialmente aquelas que o descrevem como um reino divino e misterioso, lembrando nossas origens e destino. “A espiritualidade”, explica o artista, “consiste em se conectar com um conhecimento mais antigo e tentar descobrir uma continuidade nas razões pelas quais buscamos o céu. O céu é uma ideia, uma parte de [...] um conhecimento mais antigo.” (SPECTOR, 2009 apud acervo online MUSEU GUGGENHEIM BILBAO, tradução nossa, grifo nosso).
Ainda segundo Rego, “Todo o seu trabalho traduz uma demanda pela transcendência e pela compreensão do lugar do Homem no mundo, encarando a arte como atividade livre onde se projetam as indagações pessoais e as ligações com a transcendência [...]” (REGO, 2013, p. 195).
Podemos então pensar que, se por um lado, há a mortificação da realidade objetiva e direta, que antes sustentava a planta-dos-pés do homem junto ao solo, permitindo-lhe continuidade ao deslocar-se horizontalmente; por outro, há uma riqueza inexplicável que se mostra em consequência de toda a secura e mortificação da terra, antes mãe, e das antigas raízes, agora soltas. Da soltura, inerte o homem direciona-se para cima e, talvez, somente por finalmente habitar o mais baixo e pobre dos planos, apercebe-se: o céu brota de Si.
Conforme Loureiro (2016), com dimensões monumentais (514 x 503 x 8 cm), a obra de Kiefer nos sugere, com um certo temor, a imensidão e a magnificência dos fenômenos:
A aparente dimensão desmesurada dos elementos representados nas obras de Kiefer é produzida pela alteração da linha do horizonte para níveis, ou muito elevados, ou para baixo ao nível do chão: o primeiro sugere ascensão e infinitude, o segundo sugere pequenez humana ou morte (mais próximo do chão), o que confere aos elementos apresentados uma dimensão desmedida, como se percebe. A linha do horizonte está ao nível do olhar de quem observa, obrigando o espectador a tentar identificar, mesmo que inconscientemente, a sua posição e a direção do olhar. Desta forma, a composição é propositadamente definida para criar associações no espectador relacionadas, ou com a ascensão (transcendente), ou com a morte (metafísica), mesmo que ele não esteja consciente disso. (LOUREIRO, 2016, p. 169).
Ainda com Loureiro, é notável que em certa medida o trabalho de Kiefer “procura o diálogo com a dor e com o sofrimento [...]. Contudo, ao mesmo tempo parecem indiciar que haverá algum interesse pessoal de fascínio nestes assuntos.” (LOUREIRO, 2016, p. 167), uma vez que se auto representa em contato com o infinito e com a tragédia humana ao mesmo tempo. Segundo Rego, “os trabalhos de Kiefer materializam essa tendência para a desintegração e para a ruptura, incorporando o envelhecimento e a morte.” (REGO, 2013, p. 197).
Por fim, dadas as presentes exposições e explorações poéticas, traçam-se inúmeros laços - alguns silenciosos - do artista com sua obra e, de sua obra com o referencial teórico discorrido no corpo deste trabalho. As proximidades das temáticas de Kiefer com a Nigredo alquímica se estabelecem e compartilham, ambas, de proporcionar intencionalmente ao ator/telespectador, a integração dos opostos, ou, conteúdos rechaçados, a partir de suas provocações. Quanto ao mistério à priori e a posteriori da existência humana, mesmo que o processo de individuação e espiritualidade nele contida nos deem algumas respostas, resposta dada não alcança resposta realizada. Assim, como os símbolos, se faz charada: o que é, o que é, que já é, mas pode não ser?